Monumentos Involuntários: exposição coletiva no Contemporão SP

Monumentos Involuntários - exposição coletiva (Contemporão SP)

A exposição coletiva Monumentos Involuntários acontece de 7 de outubro a 7 de novembro de 2020 no Contemporão, em São Paulo, espaço autônomo e sem fins lucrativos cuja premissa é trabalhar com projetos experimentais e participativos.

Participam da Exposição com proposições artísticas:

Adriano Braga de Moraes, Bruno Mendonça, Camila Huhn, Carlos Eduardo Borges, Clovis Cunha, Coletivo (Adriana Tabalipa, Eleonora Gomes, Eduardo Amato, Gustavo Francesconi, Leo Bardo), Dan Alon, Debora Moreira, Eliana Borges Elizabeth Carvalho, Jayme Menezes, Katharina Haupt, Marcelo Terça Nada, Marcio Carvalho, Marcos Martins, Marta Neves, Sissi Fonseca e Hugo Fortes, Priscila Bezerra, Rubens Pilegi, Ricardo Mauricio, Ricardo Corona, Roderick Steel, Tales Frey, Yiftah Peled.

Participam com textos impressos integrados À Mostra:

Deputada Erica Malunguinho, Douglas da Nóbrega, Grupo Erro, Pollyana Quintella, Ricardo Maurício, Rubens Pilegi, Yiftah Peled e Elaine de Azevedo.

Visitação

Os visitantes poderão agendar suas visitas através do contato@contemporaosp.com de segunda a sexta, das 10:00 às 17:00 horas e todos os procedimentos de segurança serão observados. Os organizadores estão acompanhado a retomada da abertura dos espaços culturais em São Paulo e pode haver alteração nas datas da exposição caso aconteça alguma mudança exigida pelas medidas contra a pandemia.

Texto Curatorial da Exposição Monumentos Involuntários

Após 25 de maio de 2020, dia da execução de George Floyd, cidadão negro estadunidense, pela policia de Mineápolis, uma série de manifestações se espalhou por diferentes países.

Nessa onda de manifestações antirracistas, uma das ações que chamaram a atenção foi o desmantelamento de monumentos públicos. Os alvos foram esculturas que retratavam líderes políticos e econômicos vinculados, de alguma forma, ao racismo, a escravidão e ao colonialismo.

Tais acontecimentos revelam certa urgência de reavaliar a configuração da esfera pública e, mais especificamente, o papel da arte nesse espaço.

A nível institucional, os efeitos desses desmantelamentos estão acontecendo em vários países, estados e prefeituras onde os agentes do poder público estão agindo para deslocar monumentos polêmicos das praças, parques e ruas.

No Brasil, a deputada estadual de São Paulo, Erica Malunguinho encaminhou um projeto de lei que questiona a permanência de alguns monumentos que sustentam uma visão colonial: “as instituições brasileiras devem rever os seus princípios éticos no que diz respeito às políticas de combate ao racismo e à reparação histórica da população negra brasileira”. E o projeto reitera no seu artigo 5o:

Os monumentos públicos, estátuas e bustos que já prestam homenagem a escravocratas ou a eventos históricos ligados a prática escravagista devem ser retirados de vias públicas e armazenados nos Museus Estaduais, para fins de preservação do patrimônio histórico do Estado.

A proposta da deputada reverbera na secular política de exclusão estética/ideológica na esfera pública. A autora do projeto aponta:

Na região central da cidade de São Paulo, por exemplo, encontramos, apenas, três edificações que fazem referência à presença negra: a Herma de Luiz Gama, no Largo do Arouche; a estátua de Zumbi, na Praça Antonio Prado; e a estátua da Mãe Preta, no Largo do Paissandu. As placas, nomes de praças, ruas, escolas, entre outros, são raros. Não pela ausência de negros e negras no espaço urbano, mas sim pelo apagamento dessas existências.

Em contraste a tal escassez, nessa mesma cidade, em locais estratégicos, obras monumentais representam colonizadores e escravagistas, como a estátua de Borba Gato, a Homenagem às Bandeiras, o Monumento a Duque de Caxias, o Monumento a Pedro Álvares Cabral e a estátua Glória imortal aos fundadores de São Paulo.

As manifestações recentes a favor de retiradas de monumentos geraram também uma resistência, expressa em discursos conservadores pautados nas ideias de proteção de patrimônio histórico e nacional, da suposta autonomia estética, da manutenção de valores estabelecidas e da defesa dos ‘heróis nacionais’. O caso mais evidente aconteceu durante a campanha de reeleição de Donald Trump quando o candidato realizou um discurso junto a montanha de Rushmore onde estão esculpidos, em tamanho monumental, os rostos de cinco presidentes do EUA. Trump também ameaçou com mandato de prisão de 10 anos a quem intervir em monumentos públicos.

Paralelamente aos discursos patrimoniais, acontecem perseguição de ativistas e artistas que têm levantado críticas ao tema da colonização. Em agosto de 2020, por exemplo, a artista peruana Daniela Ortiz teve que sair da Espanha depois de receber ameaças nas redes sociais por parte de extremistas.

O tema do monumento é muito amplo e inclui discussões que envolvem política, urbanismo, narrativas históricas e histórias da arte, espaço público, arquitetura, modernização, colonização, economia, geografia, a esfera contemporânea, filosofia, sociologia, ativismos e revoltas sociais sob uma perspectiva decolonial.

As manifestações tornaram ainda mais evidente que a arena pública é um espaço de conflitos ideológicos e os monumentos artísticos, apesar de terem sido implantados, sobre altos pedestais, cercados e protegidos como patrimônios culturais ‘neutros’, hoje já não conseguem passar desapercebidos das arenas políticas.

As intervenções em monumentos oportunizam questões diversas como: é preciso mesmo destruir o monumento?; patrimônio para/de quem? a destruição pode provocar o esquecimento?; como potencializar a problematização de um símbolo ou de uma ideologia?; qual o papel do artista no espaço público?

As proposições aqui denominados de Monumentos Involuntários dialogam com tais questionamentos e fazem as seguintes proposições:

_ Contextualizar, desviar e/ou deturpar a construção de narrativas dominantes na esfera pública, bem como intervir, simular e mudar a forma da relação entre quem usa o lugar e os elementos instalados no lugar de intervenção.

_ Gerar alteração na forma de convivência e no uso da esfera urbana onde os monumentos urbanos estão/estavam inseridos.

_ Apoiar-se em múltiplas proposições e/ou ações performativas, para além da localidade do monumento.

_ Aceitar a impermanência e agir na escala dos corpos vivos, efêmeros e fluxos desviantes.

_ Problematizar e expor forças que atravessam e conflitam a esfera pública.

_ Desviar da indução de sonhar os sonhos do poder.

Yiftah Peled
Elaine de Azevedo


Saiba mais em:

Monumentos Involuntários
Exposição coletiva
7/10 a 7/11/2020

CONTEMPORÃO SP
Performance Participação Performatividade
Rua João Moura, 1109 – Pinheiros – SP
www.contemporaosp.com

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *