Poéticas da Quarentena – volume 3 (PDF para download)

Poéticas na quarentena - arte na espreita e na espera Volume III (Bene Fonteles Org.)

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Conheça o terceiro volume da publicação “Arte na espreita e na espera – Poéticas na Quarentena”. Organizado por Bené Fonteles reunindo produções realizada por diversos artistas, escritores e músicos durante o período de isolamento social frente à pandemia do Coronavírus.

lista completa de participantes do volume 3:


Artistas Particinantes na publicação Poéticas na quarentena - arte na espreita e na espera Volume III

Texto de apresentação “Arte na espreita e na espera – Poéticas na Quarentena – Volume III”:

Gismonti gravou cerca de 70 discos magistrais pelo mundo, com composições de uma lírica poética, como raros o fizeram. Compôs a trilha sonora mais perfeita para a Terra Brasilis do começo dos anos de 1970 para cá, inspirado em personagens do tipo Mário de Andrade, Villa-Lobos, Riobaldo, o pajé xinguano Sapaim Kamayurá, e em tudo o que temos de mais universal, vasto e eterno. Ele se transformou numa verdadeira entidade cultural e espiritual de nossa memória não só musical, mas de tudo e de todo arquétipo, mito e poesia que sustenta, como vigas de madeira de lei e pau-brasil, para que o céu não caia em vão sobre as nossas medonhas e tacanhas cabeças. Todas essas cabeças ameaçadas pelo infortúnio da ignorância do que somos e sabemos, pela traição a tudo o que grandes brasileiros vêm sonhando há séculos, assim como os da geração de Egberto, que nos legaram uma inestimável herança de fé, educação e arte.

Gismonti veio por esse sonho, palavra que também foi título de sua composição Sonho 70, gravada no começo dos anos de 1970 por ninguém menos do que a sublime Elis Regina. Um amigo que morou em vários países me disse: “Nós, brasileiros, idolatramos os artistas estrangeiros quando vêm ao Brasil e nem sabemos que quando um artista como Egberto Gismonti vai tocar no exterior é anunciado e esperado como se um deus os visitasse”. Uma vez, assistindo ao seu show no Rio de Janeiro, na década de 1980, vi esse deus encarnado entrar no palco e se dirigir ao piano qual um nobre oriental a caminhar solene com um porte inigualável. Estava senhor de si em sua altivez, consciente plenamente do que era. Acima de tudo, sabia

que era neto de seu Antônio, compositor singular de valsas para cada filho nascido, e filho da adorável dona Ruth, sua maior crítica de música (um dia vocês saberão o porquê). Toda essa nobreza, meio assim interiorana, tinha que ter nascido em Carmo, uma cidade do interior fluminense que tem cheiro e sabor das cidades pequenas das Gerais, que nunca perderam a pureza original. A mim também encanta em Egberto seu amor por Guimarães Rosa, em Riobaldo, pelo que existe de Rosa em Manoel de Barros, e Mário de Andrade neles e em muito mais.

A mim comove sua lealdade aos amigos, e eu tenho conhecimento disso, pois são mais de quatro décadas em que me honra com sua cumplicidade e parcerias. Ele me disse uma vez: “nas duas vezes que nos desentendemos ficamos ainda mais amigos”. Gosto muito disso! Com sua música e humanidade, que não carecem de adjetivos e elogios, Egberto tem mais duas qualidades, além de compositor e instrumentista: seus dois filhos artistas, Alexandre e Bianca, a quem educou para ter seu mesmo porte, nobreza, dignidade e talentos. Por isso ainda me ufano, admiro e amo o nosso país, pois é onde vive, às margens do morro do Corcovado, um ser que, assim como o Redentor, também abençoa com sua fé, sua música sublime e poética o nosso sonho eterno e terno de Ser Brasil.

Bené Fonteles
Sítio Rosa dos Ventos, Minas Gerais, agosto de 2020

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